Pedalar e slingar pela cidade…

Reportagem interessante sobre o tema mais polêmico da semana no planeta babywearing… Nós não recomendamos o uso do pouch sling para passeios de bicicleta, mas a Elenice Guimarães, mãe, ciclista convicta e usuária da cidade de Curitiba, num belo dia experimentou andar de bicicleta com a sua filhota no wrap sling e, desde então, tem feito boas descobertas…

Colo aqui a matéria feita pelo blog Mãezíssima sobre a experiência dela.

Um estilo de vida, a construção de uma outra relação com a cidade, uma nova sensação para seus filhos. Que tal pedalar e slingar?

Sabe aquilo que você sempre achou impossível fazer e do nada vem alguém e faz dizendo que é super fácil e prazeroso? Duvido você conversar com a Elenice Guimarães e não perceber que um novo mundo de possibilidades se revela aos seus olhos. Com naturalidade e atenção à segurança, Elenice começou esse novo movimento com as mamães de bebês em Curitiba: o pedalar e slingar.

Elenice e Tulasi – imagem Evary Leal

O princípio é simples. Você precisa de um sling wrap e uma bicicleta. Para praticar você precisa dominar a arte de amarrar o sling e saber andar de bicicleta. Depois disso “é só subir na bike e ir experimentando a pedalada com o sling, até adquirir confiança”, orienta Elenice.

Elenice é mãe de duas meninas, a Sofia, de 4 anos, e a Tulasi de 1 ano e meio. As primeiras experiências do pedalar e slingar começaram com a Sofia bebê, com três meses de vida, num passeio no parque.

– Estava num passeio e resolvi experimentar pedalar com a Sofia no sling. Então eu vi que era fácil e que a sensação era muito boa. Você se sente empoderada e traz uma grande confiança, uma autonomia maior.

Depois que nasceu a Tulasi, Elenice resolveu boicotar o carro de vez e colocar as duas na bicicleta para se locomover pela cidade, sempre que possível.

Elenice e Sofia – imagem Evary Leal

– Cansei de ouvir elas chorando no banco de trás. E sempre que dormiam no carro era um problema para eu conseguir leva-las até o apartamento. Um dia decidi encarar a bicicleta com as duas. Queria ver se era possível para mim, ter o peso extra de duas crianças (a menor no sling e a maior na cadeirinha de trás). E deu super certo. Elas amaram! Acabou o choro e o trajeto virou um passeio. Eu percebo que elas começaram a ver a cidade realmente. A Tulasi aponta quando vê um passarinho ou cachorro. E a Sofia já reconhece quando estamos chegando perto da casa da vovó. Com certeza é um esforço físico a mais, porém me realiza muito. Além de ser um exercício me faz sentir mais segura como mãe. Eu dou conta!

Elenice já era ciclista “desde sempre”, como ela mesma diz. Nascida em uma cidade do interior, sua relação com a bike sempre foi de confiança. “Eu nunca caí, nem sozinha, nem com as meninas”. Quando se mudou para Curitiba manteve a paixão por pedalar. Hoje, Elenice e o companheiro, como ciclistas e ativistas, estão envolvidos na busca por tornar a cidade mais amigável a bicicleta e aos ciclistas.

A tensão entre o carro e a bicicleta é a única preocupação dela quando sai para pedalar e slingar. Você precisa seguir as mesmas orientações que qualquer ciclista e, além disso, manter sempre uma velocidade baixa. “Você não pode querer fazer nada na correria”. Se isso já é uma regra pra quem tem criança pequena, com a bike vira regra de ouro!

– Mas o mais importante é que pedalando e slingando você está pensando a cidade de uma maneira diferente e, principalmente, está alimentando em seus filhos essa nova cultura de que não existe só um meio de se locomover. Crianças agem por imitação, então que exemplo de relação com a cidade você está dando aos seus filhos?

Elenice e Tulasi – arquivo pessoal

Dicas para você começar a pedalar e slingar

  1. Sinta-se segura usando o sling wrap – Esse modelo é aquele sem a argola, onde a mãe amarra a criança junto ao corpo.
  2. Sinta-se segura andando de bicicleta.
  3. Comece a pedalar e slingar em parques ou trajetos curtos e seguros. Adquira confiança. Depois comece a explorar a cidade!

Elenice e Tulasi – imagem Evary Leal

Dicas de segurança

  • Escolha horários e rotas seguras para pedalar e slingar.
  • Se possível, use a ciclovia.
  • Prefira ruas com menor fluxo de carros.
  • Mantenha a velocidade baixa.

E atenção, pedalar e slingar tem alto poder viciante! Vamos vivenciar a cidade e a maternidade de uma forma limpa, econômica e extremamente prazerosa!

Se você quiser conhecer mais sobre essa atividade, neste sábado acontecerá o Slingando e Pedalando – Passeio de bicicleta para mães e pais com seus filhotes, em Curitiba – Mais informações aqui.

Elenice e Tulasi – imagem Evary Leal

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Crianças proibidas de ver

Pelo ato milenar de permitir que as crianças olhem para a frente e compartilhem as experiências vividas pelos seus pais! Texto bacana, dica da Gaabriela Moura.

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Crédito: Luiz Kriwat

Por Fernando Reinach – O Estado de S.Paulo

Nas culturas tradicionais, logo que a criança consegue firmar o pescoço, ela é transportada na posição vertical. Carregar uma criança na posição vertical faz parte do processo de educação. Hoje sabemos que o desenvolvimento do córtex visual, a parte do cérebro que processa imagens, não termina durante a vida fetal, mas continua após o nascimento e depende do estímulo visual constante para amadurecer. Os carrinhos de bebê de hoje são mais novos, mas será que são melhores?

Muito otimistas, os seres humanos associam a palavra novo à palavra melhor. Gostamos de descrever as mudanças na nossa vida como “o progresso da humanidade”.

Mas o novo não é sempre melhor. A redescoberta dessa afirmação óbvia é uma das novidades deste início de século e tem aumentado nosso interesse pelo modo de vida nas sociedades ditas primitivas. Você segue a dieta do caçador ou é vegetariano? Que tal corrermos descalços? Educar em casa ou na escola? E o colchão, não deveria ser mais duro?

Nosso passado é longo. Os ancestrais do Homo sapiens surgiram 1 milhão de anos atrás. Durante os primeiros 800 mil anos viveram coletando o alimento de cada dia, todo dia, o dia todo. Vagavam pelas estepes e florestas africanas, fugindo dos predadores. Nós, os Homo sapiens, surgimos faz aproximadamente 200 mil anos e somos descendentes dos indivíduos que sobreviveram a esta intensa seleção natural que durou 800 mil anos.

Nestes últimos 200 mil anos, ainda passamos 185 mil deles vivendo em pequenos grupos, coletando raízes, caçando, pescando, nos espalhando por diversos continentes. Os nossos antepassados que sobreviveram a esse tipo de vida descobriram a agricultura e domesticaram os animais faz 15 mil anos. Neste período, passamos 10 mil anos em pequenas vilas. Faz talvez 5 mil anos que nos organizamos em cidades maiores e somente há 200 anos ocorreu a Revolução Industrial.

Nesta história de 1 milhão de anos, o passado recente não é a Revolução Francesa ou a locomotiva a vapor, como insistem os currículos escolares. O ontem é o fim da Idade da Pedra, a organização social de tribos nômades e o modo de vida dos primeiros agricultores. O carro e a internet surgiram faz alguns segundos.

O novo livro de Jared Diamond, The World Until Yesterday (O Mundo Até Ontem, em tradução livre), é sobre esse ontem e sobre o que ele pode nos ensinar. São 500 páginas de observações fascinantes. Aqui vai um aperitivo para aguçar seu apetite.

Nas sociedades tradicionais, as crianças, antes de aprenderem a andar, são carregadas pelas mães. Em todas as culturas tradicionais, logo que a criança consegue firmar o pescoço, ela é transportada na posição vertical. Pode ser nas costas ou na frente da mãe, seja com o auxílio dos braços ou utilizando dobras das roupas ou artefatos construídos para esse fim.

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Crédito: Luiz Kriwat

Nessa posição, o campo visual da criança é aproximadamente o mesmo da mãe. Ela olha para a frente e pode observar todo o ambiente em sua volta praticamente do mesmo ângulo e da mesma altura da mãe. O horizonte, as árvores, os animais e seus movimentos são observados pela criança da mesma maneira que a mãe observa seu ambiente. Quando um pássaro canta e a mãe vira a cabeça para observar, a criança também tem uma chance de associar o canto do pássaro à sua plumagem. A criança observa o trabalho de coleta de alimento da mãe, como ela prepara a comida, o que a assusta, o que provoca o riso ou a tristeza na mãe. Carregar uma criança na posição vertical faz parte do processo de educação.

Isso era ontem. E como é hoje? Inventamos o carrinho de bebê. As crianças menores são transportadas deitadas de costas, olhando para o céu (ou para a face da mãe). A criança não compartilha a experiência visual da mãe, não consegue associar as expressões faciais da mãe a objetos e sentimentos. Os sons ouvidos pela criança dificilmente podem ser associados a experiências visuais, atividades ou sentimentos. Deitadas, as crianças modernas só observam o teto (dentro de edifícios) ou o céu (ao ar livre).

Como o céu é claro e incomoda a vista, muitos desses carrinhos possuem uma coberturas de pano, o que restringe ainda mais o campo de visão e empobrece a experiência visual da criança. Não é de espantar que um bebê, cujos ancestrais foram selecionados para aprender a observar o meio ambiente desde o início de sua vida, fique entediado. Mas para isso temos uma solução moderna: uma chupeta que simula o bico do seio da mãe. Hoje, carregar uma criança é considerado um estorvo, mas nossa nova solução distancia fisicamente a criança da mãe e não permite que elas compartilhem experiências sensoriais. Transportar uma criança deixou de fazer parte do processo educacional.

Hoje sabemos que o desenvolvimento do córtex visual, a parte do cérebro que processa imagens, não termina durante a vida fetal, mas continua após o nascimento e depende do estímulo visual constante para amadurecer. Os carrinhos de bebê de hoje são mais novos, mas será que são melhores?

É incrível, mas hoje, numa época em que educar para o futuro é o lema de toda escola, numa época em que tentamos alfabetizar as crianças cada vez mais cedo, abandonamos o hábito milenar de permitir que as crianças olhem para a frente e compartilhem as experiências vividas por suas mães.

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Crédito: Luiz Kriwat

* Fernando Reinach é biólogo.